SAIPOTU SOCIPOTU
CASA FIRJAN - RIO DE JANEIRO
PT
instalação sonora - cornetas acusticas, tubos de cobre, players, altofalantes
2025
Festival Futuros Possiveis / Festival Novas Frequências
O fundamental da utopia é ser inalcançável, da mesma forma em que o fundamental na escuta é sua intangibilidade. Apesar de ser matéria, o som não é háptico. Assim como não podemos segurar um ruído com as mãos, também não podemos concretizar plenamente uma utopia — só é possível imaginá-la.
O som, desde o início da humanidade, foi dos maiores estímulos à imaginação. Antes mesmo da escrita ou da imagem fixada, o que se ouvía criava mundos invisíveis. Imaginamos porque criamos imagens para aquilo que ouvimos: um ruído na mata transformava-se em fera, em espírito, em deus; um canto distante tornava-se sinal de festa ou de perigo.
Caminhar rumo a uma utopia é, nesse sentido, como imaginar aquilo que o som nos convida a projetar. A utopia é o som que vem de longe, sem rosto, mas pleno de significados possíveis.
Pitágoras, em seu acusmônium, conduzia aulas sem permitir que seus discípulos o vissem, para que a atenção fosse inteiramente retida pela presença sonora. Escutar, para ele, era um exercício de concentração e abertura intelectual. Txai Suruí, em sua sabedoria ancestral, diz que o futuro depende de continuarmos escutando a floresta — não apenas seus sons, mas a mensagem viva que eles carregam.
A Ágora grega também partia desse princípio: uma voz compartilhada com muitos ouvidos podia semear projetos de mundo melhor. Hoje, porém, talvez estejamos mergulhados em um paradoxo: nas redes sociais, todos falam, mas poucos realmente ouvem. Talvez seja essa saturação de ruído e dispersão que nos faça consumir mais distopias do que utopias — estamos com o ouvido afinado para o alarme, mas não para o sonho.
A utopia não será televisionada, parafraseando Gil Scott-Heron sobre a revolução, mas pode ser contada ao pé do ouvido. Talvez o segredo esteja justamente aí: recuperar a intimidade da escuta, o vínculo entre quem fala e quem ouve, para que a utopia volte a ser um som que, mesmo inalcançável, nos convide a seguir.EN
sound installation — Horns, copper tubes, players, loudspeakers
2025
The essence of utopia is to be unreachable—just as the essence of listening lies in its intangibility. Although sound is material, it is not haptic. Just as we cannot hold a noise in our hands, we cannot fully grasp a utopia — it can only be imagined.
Since the dawn of humanity, sound has been one of the greatest stimuli to imagination. Even before writing or fixed images existed, what was heard created invisible worlds. We imagine because we form images for what we hear: a noise in the forest could become a beast, a spirit, a god; a distant song could signal celebration or danger.
To walk toward a utopia, then, is like imagining what sound invites us to project. Utopia is the sound that comes from afar—faceless, yet full of possible meanings. Pythagoras, in his akousmatikoi practice, taught without letting his disciples see him, so that attention would be fully captured by the presence of sound. Listening, for him, was an exercise in concentration and intellectual openness. Txai Suruí, drawing on ancestral wisdom, says that the future depends on our continued listening to the forest—not only to its sounds, but to the living message they carry.
The Greek Agora was also founded on this principle: a shared voice among many ears could sow projects for a better world. Today, however, we may be immersed in a paradox—on social networks, everyone speaks, but few truly listen. Perhaps this saturation of noise and distraction is what makes us consume more dystopias than utopias—we have tuned our ears to the alarm, not to the dream.
Utopia will not be televised—to paraphrase Gil Scott-Heron on revolution—but it can be whispered into one’s ear. Perhaps the secret lies precisely there: in recovering the intimacy of listening, the bond between speaker and listener, so that utopia once again becomes a sound that, though unreachable, still calls us forward.
No mundo contemporâneo, onde o ruído das crises, hierarquias e distopias nos satura, escutar utopias passa a ser um ato radical. Como um som frágil e distante, elas exigem que abafemos o barulho, que ofereçamos o ouvido, que nos tornemos atentos. Essa escuta não é mais do que uma escuta ativa
— é compromisso com a construção de um futuro.