OUVIR
BIENAL DO MERCOSUL - Porto Alegre 2022.
1a SEMANA DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE OURO PRETO - Ouro Preto 2023
ANEXA_CCBB MOVIMENTOS MIMÉTICOS - São Paulo 2025
FILE - São Paulo 2025

PT
Instalação sonora interativa que simula o processo de coletivo de aprendizado de uma comunidade e a formação de um léxico próprio a partir das trocas meméticas de seus indivíduos... ou com o público visitante.

Projeto comissionado pela mostra “Transe” que ainda apresenta outros 19 artistas pesquisadores ousando estabelecer sinapses entre arte e ciência em plena distopia.

“Ouvir” consiste em duas redes autônomas de individuos virtuais isoladas em duas salas. Cada um apreende e reproduz léxicos melódicos através de reconhecimento de padrões (I.A.) criado desde o zero exclusivamente para esta ocasião com a ajuda do artista e programador Matheus Leston na programação dessa machine learning.

O público é convidado tb a intervir e colaborar com este processo continuado de aprendizado, cantando, assoviando junto às cócleas que imediatamente respondem e assimilam essas novas melodias ao seu vocabulário. Após dois meses de conversas e aprendizados na bienal veremos enfim que destino cultural assumirá cada uma dessas comunidades geograficamente próximas mas afetivamente desconectadas.

Dentre outras questões, esta obra reflite sobre esse radicalismo gestado a partir das redes clusterizadas que empregamos como metodologia hegemônica de comunicação e compartilhamento de afetos, afim de tentar entender qual suas responsabilidades em relação à esse renascimento deste fascismo orgulhoso de si com o qual passamos a ter que conviver.
EN
Interactive sound installation that simulates the collective learning process of a community and the formation of its own lexicon based on the memetic exchanges of its individuals... or with the visiting public. 

Project commissioned by the “Transe” exhibition that also presents 19 others research artists daring to establish synapses between art and science in the midst of dystopia. 

“Listening” consists of two autonomous networks of virtual individuals isolated in two rooms. Each one learns and reproduces melodic lexicons through pattern recognition (A.I.) created from scratch exclusively for this occasion with the help of artist and programmer Matheus Leston in programming this machine learning. 

The public is also invited to intervene and collaborate with this process continued learning, singing, whistling along with the cochleas that immediately respond and assimilate these new melodies into their vocabulary. After two months of conversations and learning at the biennial, we will finally see what cultural destiny will take on each of these geographically close but affectively disconnected communities. 

Among other issues, this work reflects on this radicalism created from the clustered networks that we employ as a hegemonic methodology of communication and sharing of affections, in order to try to understand what your responsibilities are in relation to this rebirth of this proud fascism with which we now have to live.



Assista a versão comentada deste video, abaixo |  Watch the commented version of this video below.












REFLEXÕES SOBRE A OBRA

HOMO SAPIENS / HOMO AUDITIO

Um dos aspectos das Inteligências Artificiais é justamente o seu “treinamento”.

Antes de poderem produzir qualquer coisa, as IAs precisam apreender. De modo geral esse aprendizado é feito com conteúdo obtido na Internet. Por exemplo: rostos de pessoas ou fotos do por do sol. Milhões de imagens disponibilizadas na Internet servem de base de dados para esse aprendizado inicial que “equalizará” o funcionamento da Inteligência até o ponto desta saber reconhecer uma pessoa ao entardecer em qualquer foto, pintura, filme ou mesmo texto.   Também podem ser usados outros tipos de dados como os seus hábitos de deslocamento pela cidade, as conversas que você tem com pessoas pelo facebook ou whatsapp, o tempo que você fica olhando para uma foto no Instagram mesmo sem curtir ela etc.  Quero dizer… quando surge uma moda daquelas de criar uma foto de perfil com o seu rosto envelhecido artificalmente, na verdade você e seus amigos que curtiram a foto estão sendo usado para treinar uma inteligência artificial que consiga, por exemplo, prever o rosto de uma pessoa desaparecida ha 30 anos. Ütil?  Como seria, hoje, o rosto de um filho retirado dos braços da mão ainda bebê na ditadura militar argentina?  Mas tb… à quem pertence e por onde anda o dono daquele rosto que se deixou filmar acidentalmente pela policia durante os protestos iniciados em 2013?  Tenso né?

Todo esse conhecimento ao qual as IAs podem recorrer é, em sua maioria, produzido por seres humanos. Daí se explica, por exemplo, porque um algoritmo consegue ter comportamento racista. Ele, na verdade, reproduz aquilo que nós depositamos como conhecimento.  Desprovido de ética, sim. Daí a importância de inundar a rede com imagens de pessoas negras, por exemplo. Textos, ideias, conteúdo de grupos historicamente invisibilizados. Daí a importância de fomentar a diversidade e a pluralidade de informação e, ao mesmo tempo, coibir as modas massívas que homogeinizam estéticas e idéias.

Em minha instalação, optei por criar um sistema de múltiplas inteligências artificiais muito rudimentares (muito mesmo!) que estivessem isoladas das informações dispostas na Internet. Elas tem como única fonte de aprendizado, o som que elas mesmas emitem ou os sons que o publico, por ventura, decida apresentar-lhes com assobios ou cantos.

Sabe-se que certas comunidades de aves de uma mesma espécie, isoladas geograficamente, desenvolvem hábitos distintos de comunicação. Sei que isso parece meio óbvio. Mas o que isso aponta de surpreendente é que essas aves desenvolvem um léxico próprio por meio de suas trocas culturais e não apenas por características evolutivas. Há inteligência cultural nos animais.


Sotaques.
Girias.
Idiomas.


Enfim… regionalismos. O território moldando hábitos e culturas.

Obvio, novamente.

O que não se para muito para pensar são  situações como a aproximação de seres humanos e todos os seus ruídos, à alguma dessas comunidades animais. Já sabemos que as aves assimilam e reproduzem os sons que geramos com nossas vozes, ferramentas e máquinas.  É um tipo de poluição cultural.

Mas… e o contrário?  O quanto nós, humanos, assimilamos desse ecossistema de múltiplos léxicos simultâneos que ouvimos quando em contato com a natureza?  Você já percebeu que cigarras cantam juntas? Que gafanhoto, em conjuntos,  entorpecem outras espécies com seus sons orquestrados? Que há perguntas e respostas ritmicas no canto de anfíbios?

Se parar-mos para ouvir em silêncio (vejam que curioso dizer isso “ouvir em silêncio”) descobrimos que os sons da natureza são na verdade uma complexa rede de troca de informações, disputas territoriais, anúncios, prenúncios e organização social. A rede de sons que sobrevooa a mata é comparável à rede de micélios que intercomunica os seres vegetais por baixo da terra. Uma rede acústica e uma rede química, respectivamente.

E quem é o ser humano nessa historia toda? Uma dica: o primeiro sentido a se desenvolver em nós, ainda no útero materno, e o primeiro com o qual nos relacionamos com o mundo a nossa volta é a audição. O ser humano é um ser ouvinte.

CRACA


REFLEXÕES SOBRE A OBRA

ALGORITMOCRACIA E CULTURA  -

Quando todos estamos conectados, o isolamento é narcísico e não mais geográfico.  

Periodicamente, amostras das melodias emitidas pela instalação foram sendo coletadas por acesso remoto ao computador central da obra com o objetivo de supervisionar seu funcionamento mas também estudar a evolução do comportamento sonoro ao longo do tempo de interação com o público e do tempo de interação dos indivíduos virtuais (unidades IA) com eles mesmos. 

Nota-se, por exemplo, como os períodos de menor visitação resultam em diálogos mais monótonos: Longos assobios de uma nota, que se retroalimentam com facilidade, tomam o meio por completo e dificultam a assimilação de outras melodias mais complexas e irregulares.

Transportando para nossa realidade… este tipo de comportamento nos faz pensar o quanto mensagens simples e auto afirmativas são privilegiadas em relação à mensagens divergentes de maior complexidade.  Seja nesta instalação ou no mundo real. Mais fácil dizer "bandido bom é bandido morto" do que olhar e acolherr a história individual de cada 'bandido'. 
Encontra mais resson6ancia a frase "ame-o ou deixe-o" do que o entendimento de que existem muitos e diversos Brasis. 

TPercebe-se então que nas redes onde todos falam, ouve-se de forma bastante seletiva. Muitas vezes buscando reafirmar nossa fala pela fala dos outros.
Ideias permanecem em circulação mais pela facilidade com que podem ser reproduzidas do que pelos beneficios que possam oferecer. 
Paradoxalmente, nas redes em que todos falam, emerge uma crise da escuta.

Afinal, o que a instalação OUVIR investiga é o quanto dessa arquitetura das redes sociais baseada em bolhas de auto-afirmação, tem sido responsável pela monotonia ideológica e pela intolerância ao pensamento diverso e divergente.
 E quanto isto estaria ligado às violências reacionárias que florescem no mundo atualmente.

Este processo, que levantou uma série extensa de dados divididos 3 ciclos de montaxgem da obra, permitiu auferir algumas conclusões significativas. Ainda que chamar esta simulação de experimento científico, seja um exagero, não seria falso dizer que OUVIR foi um experimento pretensiosamente cientifico baseado em metodologia artistica. 


Coletas de áudio do 1o ciclo de funcionamento de OUVIR.













A versão comentada do video abaixo explica em detalhes o funcionamento da obra e algumas conclusões obtidas ao término da simulação.